Ou os meus dedos...
Nao eh da epoca que queimaram o indio que tava dormindo no ponto de onibus. Assim como nao eh novidade a tentativa de homicidio recentemente na UnB. Brasileiro nao eh racista?
Brasileiro eh tudo de bom, quer ajudar todo mundo, ne?
A-ha... Brasileiro eh ser humano como qualquer outro, e o que um faz, nao pode ser generalizado. E eh assim com QUALQUER NACIONALIDADE.
O raio eh o povo que sempre generaliza.
Vou poupar minha saliva e meus dedos teclando sobre o assunto. Post extraido do Blog Sindrome de Estocolmo, que li e parecia ate que eu tinha escrito.
A dura vida dos imigrantes e refugiados africanos no Brasil
Acabei de ler essa notícia sobre um incêndio criminoso em três apartamentos onde viviam estudantes de origem africana, na Casa dos Estudantes da Universidade de Brasília. Estudantes brasileiros, que também vivem na casa, cometeram esse ato abominável.
Agência Lusa:
O atentado ocorreu na madrugada de quarta-feira, quando indivíduos munidos de gasolina atearam fogo na porta de três apartamentos da Casa do Estudante Universitário, na UnB, onde vivem alunos de origem africana.
O fogo atingiu mais um apartamento, mas os 14 bolsistas de origem africana conseguiram escapar ilesos graças à iniciativa de um estudante de Sociologia da Guiné-Bissau, que apagou o incêndio com um extintor antes que as labaredas se alastrassem pelo interior do edifício. (...) A UnB tem 427 alunos estrangeiros, sendo 157 africanos.
JC Online:
As primeiras investigações da Polícia Federal sobre o incêndio criminoso, com suposta motivação racista, dos alojamentos de alunos africanos da Universidade de Brasília (UnB), ocorrido na madrugada de ontem, apontam, além de dano ao patrimônio público, ações de racismo e xenofobia. (...)
Em ação planejada, os agressores incendiaram as portas dos quartos enquanto os estudantes dormiam, esvaziaram os extintores de incêndio e colocaram barreiras de tijolos nas portas dos apartamentos para evitar que eles escapassem. A Polícia Federal abriu inquérito para investigar o caso. Amanhã serão tomados os depoimentos de testemunhas, seguranças da universidade, professores e alunos para chegar aos responsáveis. Segundo o senador Paulo Paim (PT-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, o fato não é isolado.
Essa é a segunda reclamação envolvendo hostilidade contra os africanos. Meses atrás, as portas dos alojamentos foram pintadas com cruzes vermelhas e houve discussões acaloradas entre brasileiros e africanos. Nos três apartamentos que tiveram as portas incendiadas,
Veja vídeo feito na UNB, com depoimentos de africanos e encontro dos estudantes com o reitor da universidade..
Detalhe:
A secretária de Estado, Condolezza Rice, e o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, assinaram hoje (31/03), em Washington, um memorando de entendimento na área de educação e o acordo de cooperação conjunta dos dois países para o fortalecimento da democracia em Guiné Bissau.
Sei... avisa aos estudantezinhos brasileiros, antes, que eles têm que se comportar...
O que aconteceu em Brasília foi vergonhoso, lamentável, mas não me surpreende. Lembrei desse post, que escrevi em 2004, e resolvi re-editá-lo, porque tem tudo a ver com essa xenofobia, que existe, sim, no Brasil, país de gente que gosta de se auto-denominar "amigável" e que acredita que recebe os estrangeiros com os braços abertos...
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Quem vem sempre aqui, sabe que esse assunto de imigração, é recorrente nesse blog, porque eu sou uma imigrante e, como diz Edward Said: "O exílio nos compele, estranhamente, a pensar sobre ele".
Escrever sobre isso, pelo menos aqui, costuma ser mais polêmico do que falar sobre religião ou política. Portanto, já vou pedindo aos que discordam de mim, que saibam se comportar tão bem quanto os que discutiram suas crenças no post anterior.
Eu amo o Brasil, porque nasci lá, cada vez mais me interesso pelas minhas raízes, minha cultura, adoro nossa música, e o povão é tudo de bom... mas, morando fora, descobri que não existe um lugar perfeito, nem acima, nem abaixo da linha do Equador.
Mas, um dos mitos que tenho visto, pela blogosfera afora, é uma ladainha que "nós somos vítimas de todo tipo de discriminação e isso é uma injustiça, porque o povo brasileiro é cordial, amigo e recebe os estrangeiros de braços abertos". Claaaaaaaaaro... principalmente se o estrangeiro for loiro e de olhos clarinhos...
Já escrevi sobre isso, antes. Na época, questionava o que aconteceria, no Brasil, se recebêssemos, relativamente, a mesma quantidade de africanos que a Suécia recebe. Não estou falando em termos econômicos, claro que a Suécia tem muito mais recursos para receber refugiados, mas estou falando em termos de choque cultural mesmo. Com uma população de 8,878,085, a Suécia recebeu, apenas em 2003, 25.600 refugiados, sendo mais de 3000 apenas da Somália.
Ampliando para os imigrantes, em geral, 10% da população de Estocolmo é formada por pessoas que vieram de outros países. Algo como, estatísticamente, se o Rio de Janeiro tivesse quase 600 mil pessoas vindas de fora (não estou falando de descendentes, mas de imigrantes mesmo).
Agora, pense que a imensa maioria dessas 600 mil pessoas não é de gringos descolados e loirinhos, mas vêm das mais diferentes culturas, como a Somália, Irã, Afeganistão... com todas suas dificuldades de adaptação, e mais precisando de saúde, educação e empregos.
Será que o povo brasileiro continuaria tão hospitaleiro?
Refugiados no Brasil
A matéria do Estadão veio, apenas, comprovar o que eu já imaginava. Os brasileiros adoram gringos, mas a cordialidade brasileira depende muito da cor da pele do "estrangeiro".
Segundo o senegalês Alain Pascal Kaly, doutorando em Estudos Internacionais Comparados do Curso de Pós-graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA) da UFRJ, os "estrangeiros africanos são tratados como africanos, enquanto estrangeiros europeus são tratados com o gentílico de seu país de origem." (1)
Além dos refugiados, temos muitos estudantes africanos, principalmente de países de língua portuguesa como Cabo Verde e Angola. Mesmo tendo boas condições financeiras e educação, esses estudantes são tratados como criminosos no Brasil.
Ouvi, de uma amiga, o seguinte depoimento: "Eu trabalhei na lojas C&A de roupas por um tempo e lá apareciam muitos angolanos,jamaicanos querendo fazer cartão da loja, mas eram vistos como imigrantes fugitivos...Eles mandavam a gente inventar uma desculpa pra não fazer o cartão da pessoa...era hiper chato!". Pensa bem se isso iria acontecer com um alemãozinho, morando no Brasil.
Mas, voltando à matéria do Estadão, ficamos sabendo que o Brasil tem, hoje, 3 mil refugiados, a maioria africanos e latino-americanos. Pelo menos mais 6 mil refugiados vivem no Brasil ilegalmente. Segundo a assistente social, Denise Orlandi Collus, que trabalha com essa questão, "O refugiado é quase sempre visto como bandido ou traficante, o que dificulta sua entrada no mercado de trabalho".
A matéria continua com reclamações que poderiam sair da boca de brasileiros que vivem na Europa:
"A boa formação do refugiado acaba, às vezes, sendo um ponto negativo para a integração. Dificilmente ele consegue exercer no Brasil a profissão que desempenhava antes".
"A discriminação é outro problema que os Juan enfrentam. Mercedes conta que já teve de ouvir da diretora de um colégio que a prioridade seria dada “aos daqui”. Também reclama das relações pessoais. Para ela, é difícil fazer amigos. “Todos estão sempre na defensiva, ninguém quer se comprometer”, diz."
"Na Colômbia, trabalhava na Cruz Vermelha. No Brasil, com mulher e quatro filhas, enfrenta o desemprego e a desilusão das filhas provocada pela queda na qualidade do ensino."
Não estou querendo dizer que o Brasil deveria ter uma solução para uma questão que continua sendo o grande desafio desse mundo globalizado... as migrações. Claro que não. Mas não me venham dizer que o povo brasileiro recebe calorosamente os imigrantes, porque isso não é verdade. Principalmente quanto o desemprego aperta. os primeiros a sofrer com isso são os "de fora". Aqui e lá.
Outras fontes
Aí, pesquisando sobre o assunto, encontrei coisas interessantíssimas, na internet, cujos links divido com vocês aí abaixo, sobre a imigração para o Brasil.
A historiadora Helena Ragusa afirma que já "Na década de 20...Na cidade de São Paulo, uma entidade com os mesmos princípios eugênicos que contextualizavam a política de alguns países do Ocidente, passou a influenciar as elites a pressionarem os poderes públicos contra a entrada de imigrantes de origem asiática, africana e judia no país." (2)
"Quando cheguei no país, um brasileiro me disse que eu teria que trabalhar muito mais que os brasileiros trabalham, porque dariam preferência ao trabalhador brasileiro. Isso ficou na minha cabeça até hoje", diz Mohammed Habib.
Hummmm... já li exatamente a mesma coisa, com nacionalidade inversa, vindo de brasileiros que vivem nos países nórdicos...
O escritor Raduan Nassar, autor de Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, afirma que "Nos primórdios da imigração e por décadas a fio, em sintonia com a propaganda ocidental, que difamava aqueles povos para justificar suas constantes intervenções, o preconceito contra árabes no Brasil era indisfarçável, a ponto de ter levado alguns de seus descendentes a adotar nomes de família latinizados como expediente para desobstruir suas carreiras profissionais" (3)
Nassar escreveu esse artigo no pré-9/11 e acreditava num arrefecimento no preconceito contra os árabes... hoje eu diria que as coisas pioraram consideravelmente, mesmo no Brasil. Aliás, me choca a agressividade de alguns brasileiros que moram for ado Brasil, em relação aos povos árabes.
Conclusão
Por favor, não venham reclamar de que estou escrevendo "contra" o Brasil. Adoro o país, mas sei muito o quanto ele pode ser ingrato com os que não tem nada.
Estou apenas esclarecendo a forma como eu vejo a imigração, no Brasil, que não foi e continua não sendo um processo tão simples assim. Especialmente se você não for branquinho de olhos claros.
Estou sugerindo, com isso, que a gente deve se conformar com a discriminação nos países onde vivemos? claro que não! acho que devemos lutar por nossos direitos, nos organizar, mas sempre tendo em mente que não existe paraíso na terra e que o Brasil também não é esse paraíso de cordialidade que se diz por aí.
A questão é que, apesar de todas as leis e tratados, ainda não se descobriu uma forma de revogar uma lei natural: na hora de "dividir o pirão", no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, a tendência é começar pelos de casa.
Leia mais:
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Africanos no Brasil: dubiedade e estereótipos (1)
A representação do judeu no discurso eugênico brasileiro
no início do século XX (1920-40) (2)
A saga dos libaneses (3)
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